Jornalistas latinos compartilham suas trajetórias profissionais e percepções sobre a indústria
Profissionais da mídia deram conselhos à próxima geração de jornalistas.
Por Jensen Toussaint. 10 de dezembro de 2025. Tradução por Celia Batista.
Na terça-feira, 2 de dezembro, cinco jornalistas com atuação na Filadélfia participaram de um painel de discussão no Klein College, logo após a celebração do lançamento oficial do capítulo estudantil da Associação Nacional de Jornalistas Hispânicos (NAHJ) na Universidade Temple.
Enquanto vários estudantes que aspiram a deixar sua marca na indústria da mídia estavam na plateia, cada um dos profissionais compartilhou suas próprias jornadas e caminhos de carreira.Cada um teve um percurso único até chegar à desejada área de atuação.
“Nunca é tarde demais”
Encontrar o seu caminho nas indústrias de mídia e jornalismo nem sempre é algo linear.
Ariane Datil trabalhou por vários anos na indústria da moda antes de entrar na indústria midiática, aos 28 anos.
Na época, as redes sociais estavam se tornando uma parte cada vez maior do mundo midiático e do jornalismo.
Embora ela — e o próprio cargo — sejam novos, Datil percebeu que o fato de já estar criando vídeos para redes sociais há quase uma década ajudou bastante.
“Se eu não tivesse feito isso pelos últimos oito, nove anos, não acredito que eu teria o trabalho que tenho agora, que é poder produzir esses vídeos todos os dias e falar com públicos que hoje dependem exclusivamente das redes sociais para se informar”, disse Datil.
Danny Freeman, correspondente da CNN baseado na Filadélfia, também não seguiu um caminho tradicional para entrar na indústria.
“Eu não estudei jornalismo na faculdade, não trabalhei no jornal da escola. Não tínhamos uma emissora de TV quando eu estava na escola, nem tínhamos um curso de comunicação”, afirmou.
Ao notar que tinha interesse em falar em público, política, governo e políticas públicas, ele acabou aceitando um trabalho em jornalismo por acaso.
“Sou colombiano e queria morar na Colômbia depois da faculdade. Era a única coisa que eu queria fazer. Eu não me importava com qual seria o trabalho… e acabou sendo um emprego em jornalismo”, acrescentou.
Freeman percebeu que o trabalho se alinhava aos seus interesses e permanece na indústria desde então.
Lidando com pressões e desafios
Cumprir prazos, produzir reportagens baseadas em fatos, lidar com críticas do público e equilibrar trabalho e vida pessoal são apenas alguns dos muitos desafios de trabalhar com jornalismo.
Entre os desafios mais significativos, no entanto, pode estar o medo de cometer erros.
Para Jeremy Rodriguez, editor do Philadelphia Gay News, a lição aprendida é que “o mundo continua girando”.
Por mais constrangedor que seja cometer um erro de digitação ou se atrapalhar ao vivo, isso não é o fim do mundo.
“Eu cometi tantos erros ao longo dos anos”, acrescentou. “E posso dizer que são muito, muito constrangedores, mas ninguém se lembra deles. Então, eu diria: seja gentil consigo mesmo.”
Nesse sentido, Datil aprimorou suas habilidades de gestão de tempo, o que a ajudou a se tornar mais eficiente nas tarefas do dia a dia.
Isso, por sua vez, pode lhe dar mais tempo para revisar seu trabalho uma segunda ou terceira vez e evitar cometer o mesmo erro novamente.
Cumprir prazos também é um fator importante nas relações públicas, como destacou Abby Klemen, executiva de contas da Cashman & Associates.
Ela ressaltou que manter uma linha aberta de comunicação, ser transparente e intencional na forma de contar histórias também são aspectos fundamentais.
Desenvolver habilidades é outro ingrediente-chave para superar desafios e pressões, assim como a síndrome do impostor.
“Uma coisa que me ajudou a passar por isso foi me lembrar de que, se estou aqui, é porque sou capaz de fazer isso”, disse Gabriela Watson-Burkett, fundadora e diretora executiva da Inti Media. “Então, confie nas suas habilidades.”
Quais são outras habilidades importantes?
“É basicamente escrever”, disse Datil. “A forma como você escreve muda de ano para ano, de acordo com sua experiência de vida e com a experiência de vida que as pessoas estão passando naquele momento… você só precisa fazer isso do jeito certo.”
Outra habilidade essencial, que se aplica tanto ao jornalismo quanto às relações públicas, é a capacidade de condensar grandes quantidades de informação e torná-las adequadas para a mídia.
Rodriguez afirmou que a capacidade de romper padrões também é uma habilidade valiosa.
Essa qualidade pode ajudar um jornalista a encontrar maneiras alternativas de abordar um determinado tema que seja diferente da forma que outros veículos estão cobrindo.
Watson-Burkett expandiu esse ponto, acrescentando que o trabalho documental “permite uma conexão mais profunda com os temas abordados”.
“Para fazer documentários, você precisa estar realmente envolvido”, acrescentou. “Escolha temas pelos quais você seja realmente apaixonado. Escolha um ângulo diferente. Existem tantas formas de contar histórias, mas por que você é a pessoa certa para contá-la? O que há de novo que você está trazendo para essa história?”
A professora assistente da Temple, Denise James, moderadora do painel, acrescentou que a capacidade de receber críticas de forma construtiva e transformá-las em potencial de crescimento é outra habilidade valiosa a ser desenvolvida.
Conselhos para a próxima geração
O cenário da mídia — local e nacional — está mudando, e a necessidade de vozes diversas é mais importante do que nunca.
Existe poder real no jornalismo, e esse poder vem das pessoas.
No ano passado, durante o período que antecedeu a eleição presidencial de 2024, uma grande questão levantada foi como os latinos votariam.
Quando Freeman estava cobrindo a eleição presidencial de 2024, ele ouviu muitos correspondentes afirmarem que os condados suburbanos da Pensilvânia votariam majoritariamente nos democratas, como vinha acontecendo há décadas.
No entanto, ao visitar muitos desses condados e conversar com os moradores, Freeman percebeu que ouvia o oposto. Muitos eleitores disseram que provavelmente iriam se abster de votar naquela eleição ou que estavam considerando votar no Partido Republicano pela primeira vez.
Donald Trump acabou revertendo o resultado na Pensilvânia durante a eleição de 2024, vencendo com 50,4% dos votos contra 48,7% de Kamala Harris, garantindo 19 votos no colégio eleitoral.
Em relação a isso, Freeman disse aos estudantes e aspirantes a jornalistas que confiem nas suas qualidades enquanto jornalistas.
“Confie nos seus olhos, confie no que você vê, no que você ouve e no que as pessoas lhe dizem”, acrescentou Freeman.
Watson-Burkett compartilhou uma história semelhante sobre quando filmou e dirigiu seu primeiro documentário sobre afro-peruanos no Peru.
Era uma população que muitos, até mesmo no próprio Peru, não conheciam.
Embora as imagens não fossem ideais, o conteúdo e a mensagem da história eram tão profundos que ela começou a receber convites para exibir o documentário em festivais por todo o Brasil e, mais tarde, em Nova York.
Com o tempo, Watson-Burkett se mudou para os Estados Unidos, ingressou na Universidade Temple para estudar cinema, obteve seu título de Mestre em Cinema e Belas Artes e, desde então, dirigiu vários documentários.
“Tem sido uma jornada incrível, e tudo isso foi por causa daquele documentário simples. Então, continue alimentando seus sonhos e acredite em si mesmo”, aconselhou.
Um chamado à ação para criar mudanças
Os jornalistas podem ser agentes de mudança na nossa sociedade.
Embora os latinos estejam se tornando uma parcela maior da população dos Estados Unidos, esses números não se refletem nas salas de redação. Também não se refletem em cargos de gerência. Além disso, as histórias que abordam latinos e hispânicos não capturam a essência autêntica e diversa dessas comunidades.
Essas realidades são um dos principais motivos pelos quais Watson-Burkett quis lançar a Inti Media.
“Porque queríamos ter a liberdade e a autonomia para contar histórias a partir das nossas perspectivas”, disse ela.
Embora nem todos da equipe sejam latinos, cada pessoa tem uma história. Essa mistura de origens da equipe e dos membros da comunidade, refletida nas reportagens, gera poder e liberdade de expressão.
“O jornalismo centrado na comunidade é o principal presente que temos. Não somente estamos contando histórias sobre a comunidade, mas produzindo e dando espaço para que a comunidade esteja no centro”, acrescentou Watson-Burkett. “Acho que essa é uma fonte muito bonita de mudança.”
Freeman compartilhou que conhecer e compreender sua comunidade é outra forma de promover mudanças. Isso pode ajudá-lo a se tornar uma fonte confiável e especialista quando uma história sobre sua comunidade precisar ser coberta.
“Não tenha medo de se manifestar”, acrescentou Rodriguez. “Não importa em que nível da carreira você esteja, não tenha medo de falar, mesmo sobre pequenas coisas dentro da redação.”