“Nós existimos. Ponto final”: Concerto para angariar fundos em prol de cineasta local coloca os Afro-Boricuas e os porto-riquenhos de North Philly no centro das atenções.

Buscando inspiração em seu bairro, Anthony Rivera foca nos laços entre as raízes negras porto-riquenhas de Filadélfia através de seu novo filme, La Lengua del Tambor.

Por Vicky Diaz-Camacho. Tradução: Celia Batista.

Ant Rivera posa frente a Villa Africana Colobó, un punto cultural clave en su vecindario fundado por Iris Brown, una afroboricua a quien entrevistó en su próxima película. (Vicky Diaz-Camacho/ Inti Media)

Anthony “Ant” Rivera lança um sorriso caloroso e se inclina para um abraço apertado.

O cineasta de 25 anos está se preparando para um concerto no Taller Puertorriqueño em 21 de fevereiro, para arrecadar fundos para a última etapa de produção do seu filme: “La Lengua del Tambor”. O filme explora a história e identidade afro-porto-riquenha através da prática da Bomba, que centraliza as suas raízes no norte de Filadélfia (North Philly). O evento é uma experiência cultural imersiva, trazendo vendedores porto-riquenhos locais, como a Amy’s Pastelillos, e artistas como o grupo Los Bomberos de la Calle.

Ele queria que as pessoas sentissem o espírito da Bomba.

“Para mim, era muito importante contar a história dos 'Ricans' de North Philly simplesmente porque nós existimos. Ponto final. No sentido geral, não é realmente sobre a cultura porto-riquenha. É literalmente sobre a cultura porto-riquenha negra”, disse ele. “Quando honramos a Bomba, estamos honrando os ancestrais africanos que existiram e pavimentaram o caminho para que hoje celebremos o que, para eles, não era uma celebração.”

Ant Rivera conecta generaciones al retratar la Bomba, danza típica de la cultura afro–puertorriqueña. (Foto Vicky Diaz-Camacho/IntiMedia)

A ideia surgiu inicialmente num sonho em que Ant diz ter conhecido a sua tataravó, uma dançarina de Bomba na ilha. Então, há seis anos atrás, Ant procurou o seu tio paterno, Lucas Rivera, interessado em sua poesia. Ele sentiu uma conexão artística e uma compreensão mútua sobre a vida como um Afro-Boricua em Filadélfia.

“Ele desempenha um papel fundamental permitindo que esta história da Bomba chegue até North Philly, essa é a razão dessa conexão ser importante para mim”, disse Ant. “Ele é a conexão com a geração que preservou a Bomba.”

A página de Instagram do seu filme mostra vinhetas das suas viagens a Porto Rico misturadas com imagens de arquivo, com sobreposições de seus planos em câmera lenta de bombeiros e dançarinos, máscaras africanas coloridas e clipes do seu tio Lucas.

“Nos conectamos mais através da arte”, disse Lucas, que é autor e artista multidisciplinar. “Quando se pensa em música afro-porto-riquenha, não se pode deixar de pensar em resistência, ativismo e cura coletiva. Portanto, ele basicamente viu toda a história da minha vida. Eu sou apenas um fragmento de pensamento numa conversa maior.”

O seu trabalho também está ancorado na experiência afro-porto-riquenha, o que inspirou Ant a investigar mais a fundo como essa identidade presente em Filadélfia o moldou. No filme, ele começa com Lucas, entrelaçando a história da Bomba com a de pessoas como Iris Brown, que migrou de Loíza — conhecida como o coração da tradição afro-porto-riquenha.

Ant Rivera está na esquina da Dauphin St. com a 2nd St., onde cresceu. O Norte da Filadélfia é uma corrente marcante e constante em seu trabalho. (Foto: Vicky Diaz-Camacho/Inti Media)

Enquanto Ant permanece perto da Vila Africana Colobó, na Palethorp Street em Norris Square, um dos muitos jardins comunitários mantidos pelo Norris Square Community Project, ele aponta para a sua casa de infância no bairro.

A área é um reduto porto-riquenho no norte de Filadélfia que tem lutado com algumas das mais altas taxas de pobreza e um aumento acentuado nos custos de habitação nos últimos anos. Os quarteirões do bairro são marcados por jardins temáticos, criados por Iris Brown, residente de longa data, e outro entrevistado no filme.

“Agora, se você atravessa o bairro em North Philly, você vê os jardins dela”, disse ele com um sorriso radiante. “Ela está a fazer aquele tipo de trabalho de honrar o povo negro, o povo africano, que pavimentou o caminho para que o seu povo existisse e marcasse presença.”

Ant viu e sentiu a evolução do seu bairro, tudo isso enquanto navegava uma infância difícil. Rivera foi criado por uma mãe solteira, o pai era ausente. O mais novo de três, ele diz que viviam para sobreviver enquanto a sua mãe lutava contra o transtorno por uso de substâncias.

“Ela perdeu os pais muito jovem, por isso tinha que lidar com muita coisa, tentar superar muita coisa, acabou caindo no mundo das drogas no início da minha infância”, disse ele.

Da esq. para a dir., Emily Rivera, (embaixo, ao centro) Ant Rivera e Fred Rivera na rua onde cresceram. (Cortesia: Ant Rivera)

Quando ele tinha sete anos, encontrou o seu tio, que tinha morrido por suicídio.

“Depois de o meu tio falecer, a minha mãe entrou forte no vício e começou a alucinar muito. Havia muitos momentos em que ela agredia fisicamente a casa”, recordou Rivera, notando como os jantares de família, outrora regulares, começaram a diminuir. “A minha casa de infância começou a se deteriorar interna e externamente.”

Ele começou a vender drogas aos 11 anos para se sustentar. Ele e o seu irmão mais velho, Fred, viviam num apartamento minúsculo, pagando 700 dólares por mês enquanto adolescentes, tentando sobreviver.

“Tivemos que crescer muito rápido enquanto éramos mais novos e muitas responsabilidades de adulto que tivemos que assumir enquanto crianças”, disse Fred.

Mas no ensino médio, Ant encontrou refúgio através de um mentor. Hakim Pitts, um ministro inter-religioso e agente cultural que se baseava nas religiões africanas, era, também, o diretor de Sonhos do The Future Project. Esse projeto guiou Ant à uma saída além do que ele chama de “coisas da quebrada” quando tinha 14 anos.

Ant Riveira cresceu em Filadélfia, onde também encontrou conexões com suas raízes afro-porto-riquenhas. (Cortesia: Ant Rivera)

“Percebi que ele tinha um dom na escola para a escrita. Ele escrevia peças lindas, escrevendo muito sobre a sua vida”, disse Pitts. “O que eu reconheci foi: essa é uma criança que teve que ser muito, muito responsável, mas ele era tão curioso.”

O objetivo deles era treinar alunos do ensino médio, como Ant, em escolas públicas. 

“Ele já tinha aquele imperativo ético de que tinha de fazer algo pelo seu povo, pela sua comunidade. Mas isso também é algo que já está embutido, em muitas comunidades pobres da classe trabalhadora.”, disseram eles.

Então, Pitts o apresentou à história das pessoas que lutaram pela justiça negra e porto-riquenha, como o Young Lords Party e os Black Panthers. Foi a primeira vez que ele aprendeu o termo “Afro-Latinos”.

Na adolescência, Ant gravitou para a câmera, inspirando-se em filmes de John Singleton como “Boyz in the Hood” e “Poetic Justice”. Esses filmes mostraram que as histórias que ele escrevia sobre a sua comunidade importavam.

“Isso me levou a querer contar as histórias das pessoas do meu bairro”, compartilhou ele.

No final do ensino médio, ele tinha produzido alguns filmes centrados nas suas próprias experiências de vida. Um deles, intitulado “I Am Philly.”, foi selecionado pelo BlackStar Film Fest de Filadélfia.

nt Rivera, vestido como graduando, em frente ao Radio City Music Hall na cidade de Nova York. (Cortesia: Ant Rivera)

Estes projetos, juntamente com os seus mentores do ensino médio, o incentivaram a se candidatar a um programa de verão para estudantes do ensino médio na Tisch School of the Arts da Universidade de Nova Iorque.

“Quando cheguei na Tisch, entendi que queria contar histórias da Porto Rico Negra. Ponto final”, disse ele. “Tudo o que eu me envolvia era literalmente sobre ser um porto-riquenho que se identificava como um Boricua Negro (Black Bori). É importante perceber que eu não tenho pais afro-americanos. Ambos os meus pais são porto-riquenhos. Então, eu escolho pessoalmente me identificar como um Boricua Negro devido à minha proximidade com a negritude, o que é para mim uma posição radical e política.”

“É incrível vê-lo nesta iteração da sua vida e o que ele está a fazer. É um momento muito bonito que demonstra completude”, disse Pitts.

É claro que todos que o apoiaram estão orgulhosos, cada um deles se gabando do quanto ele cresceu: de uma criança nas ruas de Filadélfia para um diretor.

“Ele é um visionário com um coração grande, mas também tem muita lógica enraizada naquele cérebro dele”, disse Fred. “Ele está conectando os pontos, e isso é uma coisa poderosa. Por isso, estou animado.”

Quando questionado sobre as reflexões que tem sobre ser um Boricua Negro no contexto do Mês da História Negra, ele disse para “sempre escolher a você mesmo”.

Nos bastidores de Ant Rivera durante as filmagens de “The Birth of Soj”, sua tese para a Tisch School of the Arts da NYU. (Cortesia: Ant Rivera)

“Lembre-se de quem é, lembre-se do poder que tem na sua língua. Lembre-se de quem te permite existir hoje para que possa seguir o seu próprio ritmo. Celebre a sua Negritude. Ponto final. Escolha a alegria, escolha todas essas coisas que te fazem ser você, e não tenha medo.”

O evento de exibição e concerto para La Lengua del Tambor acontecerá no Taller Puertorriqueño dia 21 de fevereiro às 18h. Compre ingressos neste link.

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