Doulas: ao lado das mães por um parto seguro e respeitoso

As doulas são fundamentais para que mães migrantes da Filadélfia recebam apoio culturalmente empático nos hospitais e façam valer seus direitos

Por Lixandra Portuondo. 29 de abril de 2026. Editado por Ericka Conant. Traduzido por Célia Alves.

As doulas são responsáveis por oferecer apoio emocional, espiritual e prático. (Foto: pch.vector / Freepik.com)

O parto é um ato de envolvimento comunitário, e as doulas podem ser a ponte entre quem dá à luz e o restante da sociedade. Segundo estudos científicos, “as mães assistidas por doulas tinham duas vezes menos probabilidade de sofrer complicações durante o parto que afetassem a elas mesmas ou ao bebê.”

As doulas são responsáveis por oferecer apoio emocional, espiritual e prático, além de fornecer à mãe e à família informações sobre seu corpo, seus direitos e o desenvolvimento do bebê, mas não oferecem “opiniões nem decisões clínicas”. Isso é responsabilidade das parteiras e da equipe médica, como explicou em entrevista a doula certificada Micaela Segura, que iniciou essa profissão na Costa Rica sua terra natal e agora a exerce na Filadélfia, principalmente na comunidade latina imigrante.

Antecedentes e importância no contexto atual
As doulas não são uma novidade. Existem em diferentes comunidades indígenas, africanas e asiáticas, entre outras, e ajudam as mães a dar à luz em um ambiente compreensivo e comunitário. No entanto, muitas foram afastadas de suas funções com o avanço de práticas técnicas e institucionalização dos serviços médicos.

À medida que o parto hospitalar se tornou a norma, as tarefas que antes eram realizadas por parteiras e doulas passaram para médicos e enfermeiros. Além disso, muitas são obrigadas a passar por um processo de validação acadêmica antes de poder exercer aquilo que aprenderam de forma comunitária e prática.

Segundo explicam, desde 2006, os especialistas da área de enfermagem Papagni e Buckner, “as práticas atuais de cuidado materno nos hospitais reduziram a disponibilidade de uma enfermeira que permaneça com a mãe durante o parto. Uma consequência disso foi a perda da presença de alguém ao lado da cama oferecendo apoio contínuo ao longo de todo o trabalho de parto.”

Doula Micaela Segura. (Foto: Matriz Jaguar.Com)

Segura acrescenta que “desde a modernização da medicina [...] surge a necessidade coletiva de ter uma pessoa com formação especializada e capacidade emocional para dar apoio a quem está em trabalho de parto ou em gestação.”

A certificação que Segura possui é de espectro completo, o que significa que ela pode atender famílias desde o planejamento da gravidez até o pós-parto. Suas experiências exercendo essa função como doula latina em ambientes médicos dos Estados Unidos revelam por que uma doula é essencial para garantir o direito à informação e à decisão de todas as latinas durante o parto.

O que esperar de um serviço de doula em cada etapa?

Caso você queira engravidar: Uma doula ajuda a entender o ciclo menstrual e a identificar os momentos de maior fertilidade. Recomenda estratégias que preparam melhor o corpo para a concepção.

Caso você esteja grávida e decida interromper a gravidez: Uma doula escuta sem julgamentos e orienta na escolha do procedimento para o aborto, além de acompanhar nas consultas médicas. Durante o procedimento, ela te acompanhará caso seja feito um aborto atravez de remedios, ou te acompanhara ate a clinica, caso visitas sejam permitidas. As doulas, explica Segura, tratam o momento após o aborto como um pós-parto devido às mudanças no corpo, oferecendo apoio com escuta ativa, práticas de recuperação e rituais de encerramento.

Você está grávida e decide dar à luz: Uma doula faz visitas para esclarecer dúvidas sobre o corpo, o bebê, o parto, a amamentação, o pós-parto e a criação. Também pode ajudar a elaborar planos alimentares. Ensina exercícios e movimentos corporais úteis para um parto mais intuitivo. Escuta sem julgar os sentimentos em cada etapa. Ajuda o parceiro e a família a entender qual a melhor forma de apoio a gestante precisa de acordo com o estágio gestacional. Oferece massagens, banhos e rituais que melhoram o bem-estar físico e emocional.

Uma doula oferece apoio emocional e prático durante o parto. (Foto: pch.vector/Freepik.com)

Perda gestacional: Ajuda a atravessar o luto sem julgamentos. Escuta e valida emoções, orienta o parceiro e a família sobre como apoiar. Dependendo do tipo de perda, oferece informações sobre procedimentos hospitalares. Durante o processo, compartilha técnicas de respiração, manejo da dor, hidratação, movimento e descanso. No pós-parto, auxilia na recuperação física, no manejo emocional, em rituais de despedida e em conversas difíceis com parceiro e família.

Trabalho de parto e nascimento: Uma doula oferece apoio emocional e prático durante o parto, ajudando com movimentos físicos e respiração que facilitam o processo. Atua como ponte entre você e os profissionais de saúde, podendo inclusive servir como intérprete se houver barreira linguística. Não toma decisões clínicas, mas fortalece sua autonomia para pedir informações e participar das decisões.

Micaela Segura oferecendo apoio pós-parto a uma familia.

(Foto: MatrizJaguar.Com)

Pós-parto: Durante as visitas, oferece orientação enquanto você se ajusta a essa nova fase, responde dúvidas e oferece apoio. Pode ajudar com tarefas domésticas leves e preparo de refeições. Apoia na amamentação e/ou alimentação com mamadeira. Ensina técnicas para acalmar e carregar o bebê, exercícios para recuperação física e emocional.

Aunque las doulas centran su apoyo en las madres, no se limitan a ellas. Los padres y las familias reciben orientación sobre “cómo sostener a su pareja, cuáles son los miedos de la persona que da a luz, las maneras en las que puede mostrar su amor, su fortaleza,” a fin de que la mujer se sienta apoyada y pueda confiar en su propio cuerpo para parir, explica Segura.Este tipo de conexión es esencial no solo en el espacio doméstico, sino cuando se llega a las salas de parto de las instituciones médicas.

Embora as doulas foquem nas mães, seu apoio não se limita a elas. Pais e famílias recebem orientação sobre “como apoiar a parceira, quais são os medos de quem está dando à luz e como demonstrar amor e força”, para que a mulher se sinta apoiada e confie em seu corpo, explica Segura. Essa conexão é essencial tanto em casa quanto no ambiente hospitalar.

Doulas: uma ponte entre a família e o hospital
Segundo relatório do Comitê de Revisão da Mortalidade Materna da Filadélfia, “a taxa de mortes relacionadas à gravidez entre 2013 e 2018 foi de aproximadamente 20 por 100.000 nascidos vivos, acima da média nacional de 17,4.”

Isso também está relacionado a barreiras sociais e estruturais que afetam o cuidado pré-natal e pós-parto de mães migrantes, negras e racializadas. Nesse contexto, a presença de uma doula pode ser fundamental para reduzir essas estatísticas.

As doulas podem servir como pontes entre a pessoa que dá à luz e o restante da sociedade. (Foto retirada do site: https://es.phillylovesfamilies.com/doula-support)

As doulas informam suas clientes de que têm o direito de questionar cada procedimento, algo crucial, pois, como destaca Segura, na comunidade latina há frequentemente uma tendência a não questionar médicos ou expressar sentimentos.

“Doulas com conhecimento multicultural podem ocupar um lugar muito especial e ter um poder único para alcançar pessoas de diferentes origens culturais”, destacou a Dra. Rose Molina, obstetra-ginecologista e professora da Escola de Medicina de Harvard.

Micaela Segura recebendo apoio de sua amiga após dar a luz. (Foto retirada do site: https://www.matrizjaguar.com)

Segura também relata que, ao atender famílias que não falam inglês, seu papel principal é traduzir a comunicação entre médicos, pacientes e familiares.

É comum que mães sintam medo, incerteza e ansiedade em relação ao parto, mas as doulas ajudam a transformar esse medo em confiança na capacidade de seus corpos, promovendo uma experiência mais positiva e menos traumática. No entanto, esse serviço ainda pode ser pouco acessível, pois nem sempre é coberto por planos de saúde e opções privadas podem ser caras.

Ainda assim, existem alternativas mais acessíveis por meio de organizações e clínicas. O essencial é encontrar apoio para vivenciar a gravidez, o parto e a maternidade como experiências próprias e sem trauma. Como afirma Micaela Segura:

“Sentir-nos ouvidas quando nosso corpo passa por um processo tão diferente e transformador — mesmo sem entender exatamente o que está acontecendo — muda completamente a experiência.”

Este conteúdo faz parte da campanha multilíngue Empowering Madres Latinas, que valoriza as histórias, as vozes e o poder de organização de mães imigrantes na Filadélfia. Esta iniciativa é produzida em colaboração com o Centro Integral de la Mujer Madre Tierra, por meio do Programa de Residência Artística e Ativista Leeway Media 2025. Esta campanha serve como elemento de engajamento comunitário para o documentário Immigrant Mothers Tell Their Stories (Mães Imigrantes Contam Suas Histórias), ainda em produção.

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